segunda-feira, 17 de março de 2014

Violência cresce, mas Aracaju ainda é uma cidade tranquila

Publicada em 16/03/2014 às 00:46:00
Gabriel Damásio

Ao completar 159 anos, a cidade de Aracaju ainda mantém uma das suas características principais: a tranquilidade em relação a outras capitais. Muitos dos moradores que vêm de outros estados, como Bahia, Alagoas, São Paulo e Rio de Janeiro, afirmam que escolheram morar aqui porque há menos crimes e mais segurança, em relação às grandes metrópoles. No entanto, esta imagem vem sendo ameaçada nos últimos anos, devido ao crescimento do tráfico de drogas e de seus crimes correlacionados, como furtos, assaltos, homicídios e tentativas de homicídio.
Em janeiro deste ano, a ONG mexicana Seguridad, Justicia y Paz (Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal) colocou a capital sergipana no ranking das 50 cidades mais violenta do mundo, feito com base nos homicídios ocorridos em 2013 nos municípios e em suas respectivas regiões metropolitanas. O levantamento computou os dados da Grande Aracaju (Aracaju, São Cristóvão, Nossa Senhora do Socorro e Barra dos Coqueiros), que tem 899.239 habitantes e registrou 300 assassinatos em 2013. A média alcançada foi de 33,36 crimes por 100 mil habitantes, o que deixou Aracaju em 46º lugar na lista da ONG. É a 16ª metrópole brasileira citada na pesquisa - a primeira foi Maceió (AL), considerada pelos mexicanos como a 5ª mais violenta do mundo, com 79,96 mortes.   
Apesar de contestar a metodologia da pesquisa e confiar nos dados de seu próprio centro de estatísticas, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) admite esse crescimento e colocou Aracaju no topo da lista de 10 cidades sergipanas que vão receber um reforço nas ações de policiamento e investigação, dentro do projeto Sergipe Mais Seguro. O projeto foi criado para tentar diminuir os índices de homicídios no estado, que, segundo a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), ligada ao Ministério da Justiça, estão em 35 mortes por 100 mil habitantes. A capital lidera as estatísticas de homicídios registrados pela SSP. Estima-se que somente o município de Aracaju responda por entre 30% a 40% dos assassinatos ocorridos em Sergipe. Somando a capital às outras nove cidades, o índice pula para 80%.
Nas últimas semanas, a sequência de crimes violentos tem chamado a atenção da população de alguns bairros periféricos das zonas sul (como Santa Maria, São Conrado e 17 de Março), oeste (como Bugio, Olaria e São Carlos) e Norte (Coqueiral, Santos Dumont, Bairro Industrial, 18 do Forte, Jetimana e Japãozinho). Algumas comunidades encravadas nestes bairros registram uma ampla atuação de quadrilhas de traficantes de drogas, as quais chegam a disputar o controle das bocas-de-fumo e não hesitam em matar seus oponentes. É o que pode ter acontecido no caso de dois homicídios ocorridos na última sexta-feira em ruas próximas do bairro Santa Maria, num intervalo de 12 horas.
Também aumentaram os casos de assaltos e arrombamentos registrados na Delegacia Plantonista, sobretudo à noite, em regiões do Centro e dos bairros comerciais das zonas sul e oeste. No entanto, a maior preocupação está nos assaltos aos ônibus do transporte coletivo, que, segundo dados recentes do Sindicato dos Trabalhadores no Transporte Rodoviário de Aracaju (Sinttra), já somam cerca de 180 nos dois primeiros meses de 2014. As principais queixas da população estão na falta de efetivo das polícias Civil e Militar, além da falta da presença deles em determinados bairros - e quando estão presentes, as ruas não são calçadas e a iluminação pública é mínima.

Menos vítimas - Apesar da realidade atual, ainda pode-se considerar que a cidade fundada por Inácio Joaquim Barbosa é a capital brasileira com o menor índice de pessoas que foram vítimas de violência em algum momento da vida - e tem o segundo índice mais baixo entre os que já foram vitimados nos últimos 12 meses. A conclusão é da Pesquisa Nacional de Vitimização, encomendada pela Senasp ao instituto Datafolha, com o acompanhamento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e do Centro de Estudos da Criminalidade e Segurança Pública (Crisp), ligado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Os dados apontaram que 73,2% dos entrevistados afirmaram nunca terem sido vítimas de nenhum crime no último ano, enquanto 26,8% já foram vítimas. O segundo lugar deste quesito ficou com a capital rondoniense, Porto Velho (26,9% x 73,1%), seguido por Brasília, a capital federal (28,2% x 71,8%). Já sobre os crimes sofridos pelas pessoas em toda a vida, 19,8% dos aracajuanos admitem ter vivido isso, enquanto outros 80,2% negaram. Nesta questão, a capital sergipana foi superada apenas por Palmas, no Tocantins (19% x 81%). A pesquisa ouviu 78 mil pessoas em 346 municípios brasileiros - incluindo todas as capitais - no período de junho de 2010 a maio de 2011 e junho de 2012 a outubro de 2012.
A amostra é representativa do universo da população adulta (com idade igual ou superior a 16 anos) dos municípios com mais de 15 mil habitantes. Foi o primeiro trabalho do gênero realizado em abrangência nacional, qualificando os 12 tipos de ocorrências policiais mais registradas nas delegacias e mapeando as incidências e frequências com que elas acontecem em cada estado e suas respectivas capitais. Os crimes que compõem esta lista são: furto e roubo de automóveis, furto e roubo de motocicletas, furto e roubo de objetos ou bens, sequestro, fraudes, acidentes de trânsito, agressões, ofensas sexuais e discriminação.

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